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 de
Tere
Penhabe
Quando vim para esse mundo, eu trouxe pouca bagagem. Avisaram de
antemão, que era uma longa viagem, mas tudo que eu precisasse, quando
aqui não encontrasse, faria politicagem.
Já me mandaram sem
roupa, pra começo dessa prosa, não procede a economia. Ô situação
desonrosa! E uma parteira fuleira, muito lá da zombeteira, deu tapas na
apetitosa.
Claro que eu abri a boca, naquele choro gritado, quer
mais inconveniência, pra quem mal tinha chegado? Pelada, no bom
sentido, tendo já quase morrido... mais que justo o
desagrado.
Lanche não veio comigo, mas a mãe já deu um jeito, com
muita dificuldade me colocou no seu peito. Que vontade que eu senti de
gritar bem alto ali: - Não dá pra ser prato feito!?
Aquele leitinho
aguado não matou a minha fome, que durante muitos dias, ela quase me
consome. Então ouvi alguém dizer, que eu já estava pra morrer, da
doença disse o nome...
Era mal de simioto, um troço muito
esquisito, que deixava a pele e osso, quem tivesse o mal bendito. E com
cara de macaco. Já me senti no buraco, sem direito a
faniquito.
Tentei lembrar da bagagem, se trouxera algum
remédio, mas ninguém me ouviria, ser bebê já é um tédio! Com doença de
macaco, é ver no chão seu barraco, da morte, sofrendo assédio.
Pra
encurtar a ladainha, não me mandaram pra tumba, de tanto fazer
novena, e despacho com zabumba. Consegui sobreviver, sem ninguém pra me
dizer, se foi milagre ou macumba.
E segui sobrevivendo a muitos
outros tropeços, vivendo dia por dia, a todos chamei começos. E já fui
fazendo a mala, porque quando for pra vala a bagagem tem seus
preços.
Hoje ela tá estufada, difícil até de fechar, mas espremo no
que posso pra coisa boa encaixar. Levo comigo amizades, dessas que
deixam saudades, por mais que o tempo passar.
Levo também as
virtudes, que não são em quantidade. A gente luta e labuta, mas peca na
ingenuidade. E o que aprendemos de moço, de velho, vira caroço, tem
data de validade.
Então sobram os defeitos... Esses incham a
bagagem! Dizem que sou venenosa, consta na minha listagem. Pra não
morrer engasgada, nunca deixei passar nada nem mesmo com
beberagem.
Falo tudo ao pé da letra, para quem quer ou não quer, o
peão tem que saber, de todo mal que fizer. Mas a franqueza
machuca, como sopapo na nuca, de si ninguém quer saber.
Gostam
mesmo é de fofoca, de falar da vida alheia, e não digo que não
tenha, alguma aqui na bateia. Mas só falo o que provar, portanto não
vou pagar, por essa prática feia.
Mas como toda bagagem, tem a
bolsa de acessório. Na vida, vem dos bazares, na morte, do
ambulatório. Dor de toda qualidade, pelotas em quantidade, nem cabem no
purgatório.
Por falar em purgatório, sem querer aqui maldar, tenho
amiga em maus lençóis, que por lá há de passar. Por conta de um tal
zezinho que usurpou com jeitinho do falecido, o lugar.
Mas eu não
tive esse trem. Esse pecado não devo. Mesmo que não pese muito, é um a
menos que eu levo. Porque vamos combinar, não tá fácil de fechar, só
com pecados que escrevo.
Pois é isso minha gente: - Essa vida é uma
viagem! Chegamos de mala e cuia, com uns anos de vantagem. Mesmo sem
fazer maldade, praticando a caridade, leva escorpião na
bagagem.

 ©
Copyright 2009 por Terezinha A.
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