de Tere Penhabe

 

Eu saí por muitas vezes
do lugar onde eu nasci
foi lá que perdeu as meias
Judas que aportou aqui
as botas, é quase certo
ficaram bem mais perto
desse rincão pr' onde eu vim.

 

O cordão umbilical
dessa vez pude cortar
tesoura foi o pôr-do-sol
que abraça as tardes no mar
a alma, a saudade abriga
mas aqui ela não castiga
pra lá só vou passear.

 

Rever a bela paisagem
que só tem no interior
as pitorescas histórias
que contam com tal ardor
é como estar vendo
de novo acontecendo
fados de amor e de horror.

 

Nessa última viagem
pude ouvir proseador
Luciano Victorino
na estrada é seu labor
pimenta que ele comeu
só o nome já estremeceu
"PRA CABRA MACHO" sim senhor!

 

Diz ele que todos temem
o bairro da Mombuquinha
estranha força passeia
se a meia-noite avizinha
seja “bundão” ou valente
esperto ou renitente
todos chamam a mãezinha.

 

Com ele já aconteceu
aumento aqui a história
deixou cedo sua amada
veio pra cair na esbórnia
mas na moita de bambu
coração fez um rebu
na explosão daquela hora.

 

Sua moto continuou
alheia ao acontecido
mas ao descer o espigão
avaliou o prejuízo
nada viu estragado
mas a placa tinha ficado
perdida no tal zumbido.

 

Ele voltou prontamente
sem medo e sem hesitar
a peça era importante
precisava procurar
no capim amarrotado
ele se viu atolado
sem do medo se lembrar.

 

Lá encontrou meia dúzia
não de placas mas de cruzes
foi tomado de arrepios
nas mais remotas raízes
tá certo que era valente
mas o trem impertinente
tocou-o pra buscar luzes.

 

Quando o sol chegou à pino
o "cabra-macho" retornou
ele era moço tinhoso
da perda não se conformou
foi vã a sua empreitada
pois além de não achar nada
de mais cruzes se inteirou.

 

A partir daquele dia
o moço viu explicado
o medo que todos tinham
daquele trecho de estrada
quem ouviu a sua história
contada com tanta inglória
riu até as gargalhadas.

 

Até porque é estranho
esse tal licenciamento
que no céu andam fazendo
assombrações do momento
vindo aqui pra buscar placas
e fazer mijar nas calças
cabras de muito talento.

 

Eu porém não acho graça
não por crer ou duvidar
acontece que o menino
fez no tempo eu viajar
que desde a mocidade
perdia a velocidade
meu carro ao passar por lá.

 

E se isso não bastasse
o casarão ainda está
plantado à beira do rio
o mais antigo do lugar
feito na revolução
sob a mira de canhão
dos soldados a passar.

 

Lá viveu minha família
meus avós também meus pais
que o moço não sabia
ao sua história contar
e jovem, cheio de ilusão
lá morreu o meu irmão
já há vinte anos atrás.

 

O medo faz muita coisa
todos sabem, é fatal
morre gente em todo canto
mas voltar não é normal
se existe assombração
confesso de coração
nunca vi, nem bem nem mal.

 

Mas tenho uma teoria
por tudo que já ouvi
quem for medroso ou "bundão"
deve vir morar aqui
quem morre no mar se vai
e não volta nunca mais
isso dá pra eu garantir.

 

Nunca ouvi história
dos que aqui se perderam
nas tais ondas furiosas
onde milhões já morreram
imagino que Iemanjá
venha a todos encontrar
em suas horas derradeiras.

 

Tere Penhabe
Santos, 30/11/2006_9:00 hs

 

 

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