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Não
me sepultem na primeira quadra Seu Pedro, um jornalista meu amigo, disse numa prosa bem feita, que queria ser sepultado na primeira quadra do cemitério... pretende continuar ouvindo os ruídos da cidade enfumaçada e barulhenta... Já eu, não tenho esse gosto, não me apetece continuar ouvindo nada do que ouvi nesse mundo, pois foi o suficiente. Na primeira quadra, é sempre onde ficam os corretores, os cambistas. Nisso, Seu Pedro tem razão. É exatamente lá que fervilham as ofertas para a negociação de uma passagem para o céu. O leilão é feito em nome de Jesus, em nome de Deus. Batem no peito para impressionar e nos bolsos para verem se estão sendo bem-sucedidos, se a prosa está convencendo. Como não estarei mais em condições de pagar, o que aliás, mesmo em vida tive poucas, sei que minha presença ali só me trará contrariedades. Não poderei dizer nada... Eu que passei a vida dizendo tudo que sentia ao interessado, não posso correr o risco de ter que me calar quando mais tiver vontade de falar. Como poeta que sou, o certo seria eu pedir que me cremassem e espalhassem as cinzas ao mar. Mas nem isso me apetece mais. Deixou de ser original, e eu sempre fui adepta da originalidade. Além do mais, o mar anda sufocado de tantas cinzas, nem sempre merecedoras do seu abraço. Coitado... Melhor poupá-lo. Já recomendei, e
volto a lembrar os responsáveis: - Não quero velório. Deixem meu corpo no
necrotério o tempo usual, se for possível, mas sem aquelas lágrimas de crocodilo
em volta. E as verdadeiras, não precisam derramar. Eu os absolvo dessa
pena. Portanto, amigos e inimigos, o que tiverem que fazer por mim, façam
agora ou calem-se para sempre. Não esperem a minha morte para isso, pois darão
com os burros nágua. Quanto ao
meu corpo... onde vão pô-lo? Em que quadra sepultá-lo? Danem-se. Isso é problema
de vocês, não meu.
Tere
Penhabe
Mid:
Thriller |