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Não
Há Vagas de
Tere Penhabe
Temos visto com frequência esse tipo de aviso em tabuletas espalhadas aí pelo
mundo: NÃO HÁ VAGAS... Tem sido tão amiúde essa leitura, que às vezes chego a
pensar que dia chegará, em que alguém vai ser barrado por uma placa dessas, na
hora de nascer. Melhor seria se a "Dama de Negro" também resolvesse aderir ao
classificado em questão. Da minha parte, tem acontecido e tenho ficado muito
feliz com a incompetência da morte. Dia desses uma pessoa que eu amo muito,
me disse que eu vou "ficar pra semente". Não quero isso, até porque acredito
piamente na "vida após a morte". Imagino que se o outro lado da vida fosse ruim,
estariam todos aqui se lamentando, afinal, o que mais fazemos nessa vida é
lamentar. Choramingamos o tempo todo, reclamando principalmente do governo,
dos patrões, dos vizinhos, dos parentes ( ah, estes sim, são os dentes! rs) e
reclamamos do professor, do marido relapso, do filho negligente, do médico
displicente... e se algum dia amanhecemos contentes, esse contentamento não
sobrevive ao nosso dia. É muito difícil chegarmos ao fim da tarde, com a mesma
alegria da manhã. Parece até que quando a alegria bate na porta do nosso
coração, encontra a famigerada tabuleta: NÃO HÁ VAGAS. Pois é, baseado
nisso, eu ouso afirmar que a vida fica boa quando acontece o que julgamos que é
acabar. Mas o alicerce estamos construindo aqui, agora. Portanto, vamos
realinhar esta empresa e abrir vagas para tudo que é bom: amor, amizade,
alegria, esperanças, sonhos... isso criará para a nossa empresa (a vida), uma
estrutura indestrutível, que ninguém jamais poderá influenciar negativamente,
muito menos derrubar. Vamos demitir por justa causa, toda a tristeza que
aparecer na nossa vida, as dúvidas, os medos... ah, o medo! Este é o nosso
maior vilão... quanta vida deixamos de viver, por medo! Mas medo de quê? Por
que? Ninguém sairá vivo daqui, então não há porque ter medo. O máximo que pode
acontecer é o que aconteceu comigo: arrebentar-me no muro à minha frente, que eu
não sabia que existia, que eu sequer imaginava que estava ali... mas foi tão bom
arriscar! E melhor ainda, sacudir a poeira e dar a volta por cima, levantando,
caindo, levantando de novo, sobrevivendo, até curar minhas feridas, acariciar as
cicatrizes e arriscar de novo! Não há nada melhor do que olhar para trás, e
não ver nada que poderia ter sido feito e não foi. Isto é a paz de
espírito! Mas não é fugindo que se chega a ela... para fazermos a omelete, há
que se quebrar os ovos... lembram-se? Então é isso: tomara que eu ainda
continue por um bom tempo, encontrando nas mãos da morte, a placa NÃO HÁ VAGAS,
porque enquanto isso, eu posso continuar por aqui, arriscando mais, me quebrando
mais, mas sobretudo, APRENDENDO mais. Que todos nós vamos precisar desse
aprendizado, algum dia, em algum lugar... ah, vamos SIM!
Tere
Penhabe Santos, 18/01/2006
Imagem: "Não Há Vagas" de
Rubem Gerchman - 1965 |

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Copyright 2006 por Terezinha A.
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Mid:
Andança Compositores: Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós Intérprete:
Beth Carvalho
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