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A velha senhora chega à
porta do laboratório de análises clínicas, para onde se dirigiu com o intuito
de efetuar um exame de sangue, solicitado pelo médico do SUS (Sistema Único de
Saúde), e ÚNICO mesmo, porque era o único do qual ela dispunha.
Pela imponência das
escadarias de mármore do prédio, ela foi pensando..."isso vai me
custar os olhos da cara..."
Chegando ao balcão, a
atendente recebe a requisição do exame, e como quem analisa uma cédula falsa de
R$ 100,00, pergunta, entre desconfiada
e incrédula:
_ É particular?
_ Sim minha filha, por mais inverossímil
que pareça, é preciso... mas antes de coletar-me o sangue, quero que me forneça
o preço do tal exame.
Vira-se para o
computador e... nome, dados, cálculos, etc etc etc e eis que ela retorna:
_ São cento e oitenta e um
reais, senhora.
A velhinha, se estivesse num
cemitério, certamente teria caído direto na primeira tumba
à disposição, mas, equilibrando-se nas pernas bambas, pergunta:
_ Vocês me farão de olhos
verdes...?
_ Como assim... não
entendi!?
_ Ah minha filha, por este
preço, vocês vão me clonar, não vão? _ e desembesta..._ pois eu quero olhos
verdes, e uma região glútea um cadinho mais acentuada, não muito que em minha
terra as tanajuras são mal vistas, mas um cadinho mais de seios também me caía
bem, enfim, um cadinho mais em tudo que já desembestou ladeira abaixo... dá pra
ser?
_ "My god"... _murmura a
atendente entre dentes, e um pouquinho mais alto:
_Senhora, nós não fazemos
clonagem aqui, o preço que eu lhe dei é apenas para analisar seu sangue,
conforme lhe solicitou o médico, compreende?
_ Compreender eu compreendo,
minha filha. O que é difícil é aceitar... Se ainda fosse sangue azul, o meu, vá
lá... Como é possível, num país onde o salário mínimo é de R$ 300,00, que
um simples exame de sangue, custe R$ 181,00? E somado ao exame de urina,
eletrocardiograma, teste ergométrico, o tal de eco... eu precisarei da
indenização da empresa onde trabalhei por 20 anos, para quitar esse débito?
_ Não, minha senhora, a
senhora só precisa recorrer ao SUS para elaborar seus exames, e não pagará nada
por eles.
_ Ah, mas é claro, como eu
não pensei nisso antes? Mas inda que mal lhe pergunte... será que eles atendem
no inferno? Sim, porque para fazer todos esses exames, eu levarei alguns anos
entre um e outro, e como a minha probabilidade de sobrevivência não é lá das
melhores, certamente antes de terminá-los, eu terei batido com o rabo na cerca,
mas tudo bem... eu vou pagar esse exame... desde que me parcelem a perder de
vista... quantas vezes?
_ A senhora paga metade
agora, e metade quando vier buscá-lo...
_ Que maravilha! Eu não sei
como faria se não fosse essa conveniência de vocês... muito bom amadinha, então
fica assim: metade às oito da manhã, e metade às quatro da tarde? Vocês são
ótimos, muito, muito obrigada, MESMO!
E a atendente, entre
solícita e divertida, tentando segurar o riso, lhe responde agradavelmente:
_ Obrigada pela compreensão
senhora, e comece a pensar desde já... no eletro-encefalograma, está bem?
_ Oh, não será preciso!
Este, quem precisa é o médico que me mandou fazer esse exame com tanta urgência
assim, afinal, se ele acha que somos capazes de esforço tão descomunal, já
ficou caduco no ano passado... mas ele deve ter mais facilidades para tanto, com
certeza, afinal, ele é parte integrante da máfia, com todo o respeito, é claro!
E assim terminou o entrevero
de uma senhora aposentada no laboratório de análises clínicas.
Como ela sobreviveu pelos
outros 29 dias do mês, eu contarei numa próxima crônica...rs
Tere Penhabe Santos, 06/01/2006_11:00 hs
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