Pai...
estou precisando do senhor.
Na verdade, eu sempre o tratei de "Senhor",
mas aqui vou mencioná-lo como "você",
porque as pessoas desta época entendem que
Senhor é o Todo Poderoso,
e você era tão pouco poderoso, pai...
mas eu te amava.
Você nunca foi exatamente um herói,
era tão desprovido de grandes valores morais, pai.
Mas eu te amava...
Eu conhecia desde muito cedo,
as suas fraquezas
e a grande extensão dos seus erros,
mas o seu grande acerto era o seu sorriso, pai.
Poucas vezes eu vi um sorriso
tão iluminado quanto o seu.
Um dia seu rosto ficou sem ele,
quando você arrumou uma maleta e foi embora.
Minha mãe mandou que eu fosse buscá-lo,
e eu corri pela rua
na desesperada tentativa de alcançá-lo.
Eu tive tanto medo que você não voltasse, pai...
mas apesar de dizer que não,
você tomou-me pela mão e voltou...
eu te amava tanto!
E assim a vida foi indo, nem sempre feliz.
Vocês brigavam tanto, pai!
Eu nunca entendi porque.
Meu coração se dividia desesperado
entre você e a mãe,
porque você era mais carinhoso comigo,
mas era a mãe que sempre tinha razão...
por menor que eu fosse,
já dava para ver isso.
Mas mesmo assim eu te amava...
E amei-o pela vida afora,
mesmo quando precisei ser dura com você,
em algumas das suas trapaças...
mesmo quando precisei chamar a sua atenção,
como se você fosse o meu filho e não o meu pai...
Eu acho que a conversa mais sincera que tivemos,
foi aquela debaixo do sol forte,
na estrada Ipaussu-Bauru,
dentro da ambulância que levava você
para o hospital de Base.
Você ia ser operado,
mas eu achei que você nem estava doente,
porque estava tão animado e tão bem.
Quando o motorista se apavorou
porque o pneu furou
e o estepe tinha ficado no posto,
você sorriu como sempre fazia
e disse para ele se acalmar que você estava bem.
Ele foi de carona para a cidade mais próxima, buscar um pneu,
e eu e você ficamos conversando.
Rimos tanto, como nunca havíamos rido juntos
durante toda a nossa vida.
Você me fez confidências,
até confissões que eu nunca imaginava
que faria um dia.
Você estava morando com uma jovem
45 anos mais jovem que você,
e contou-me fatos pitorescos dessa relação.
Ah, pai, como você era trapaceiro!!!
Mas eu te amava tanto...
Depois da operação,
foi minha mãe quem cuidou de você,
porque a sua outra "esposa",
"limpou a casa"  e sumiu,
com medo de ser responsabilizada
pelo seu problema cardíaco.
Eu achei que finalmente você e minha mãe
se entenderiam,
mas essa ilusão durou pouco,
até você ficar completamente bom.
Mas mesmo assim, eu te amava...
Fomos juntos pela vida, até onde deu...
mas de repente, eu precisei te abandonar.
Não sei se é remorso o que sinto,
mas não tinha opção,
e você compreendeu isso,
mas não consigo me esquecer
de quando olhei para trás
e vi o seu olhar tão triste
vendo eu me afastar...
eu te amava tanto, pai!
Mas naquele dia,
quando me ligaram e disseram
que você estava morto,
eu não queria acreditar.
Mesmo assim corri para a pista,
peguei o primeiro lotação que passou
e tentei chegar a tempo...
viajei o dia todo,
mas eles não acreditaram que eu faria isso,
e quando eu cheguei, às 17:15 hs...
já era tarde.
O enterro havia saído às 17:00 hs.
Demoraram para vir falar comigo,
até que mandaram uma funcionária
dizer que o seu enterro tinha saído já,
que a empresa de ônibus havia informado
que não tinha ônibus para chegar...
Eu senti uma tristeza tão grande...
aquelas árvores que eu amava tanto,
de repente me pareciam monstros
querendo me devorar.
A rua arborizada,
onde passei tantas vezes na infância e juventude,
parecia tão quente, tão asfixiante...
mas aí, sem dizer uma palavra
eu me virei e saí...
vi quando as pessoas chegaram ao portão,
em dúvida se me chamavam ou não...
e eu fui embora.
Aos poucos,
fui sentindo uma paz muito grande,
uma impressão forte de que você sabia
que eu tinha vindo,
e que não ter chegado a tempo,
não fazia a menor diferença,
afinal, já tínhamos falado e rido juntos
tudo que era possível...
eu não poderia fazer mais nada por você...
só continuar te amando...
E te amo ainda, pai...
por isso estava precisando de você,
para lhe dizer isso mais uma vez:

Pai, te amo muito, viu???

 

Tere Penhabe
Santos, 25/07/2004_10:04 hs

 

 

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