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Sempre ouvi dizer que a solidão dói, machuca, fere profundamente.
Baseada
nesse conceito, fico me perguntando o que é a solidão, além de se estar
sozinho.
Porque não sinto as famigeradas dores, não sinto nenhum ferimento,
apenas... o silêncio.
Ele me perturba e amortece meus sentidos, como se
fosse uma droga paralisante, que me deixa impossibilitada de me mexer... não
falo, não ando, não saio... apenas ouço.
Ouvir o silêncio... pode parecer
impropriedade minha essa afirmação, mas não é.
Eu ouço o silêncio, e é
ensurdecedor dentro de mim, o seu som.
Automaticamente, uma parte de mim
procura lembranças de quando havia outros sons, além do silêncio.
Entro
no túnel do tempo e vou passando por algumas portas que guardam lembranças
tristes... paro em frente a um porta amarela, abro e vejo nitidamente o que
aconteceu naquele dia: um casamento.
Era o dia do meu casamento... aquela
roupa branca incomodava-me, os sapatos apertavam e eu sentia o suor correndo
pelo meu corpo.
Alguém ajeitava o meu cabelo, e me provocava dores puxando-o
com muita força. Ela colocou-me a grinalda e perguntou se estava bom.
Olhei no espelho e as lágrimas brotaram efusivas. Comecei a
balbuciar palavras entre as lágrimas, como se um milagre pudesse levar
aquelas palavras para onde deveriam ir.
Ela chegou perto de mim, tocou no
meu rosto com suavidade e me perguntou o que estava acontecendo. Era minha
irmã...
Tomada de súbita onda de coragem, falei intempestivamente, que
não queria me casar, que queria voltar pra casa, com minha mãe, meu pai e
meu irmão, não queria ficar ali.
Ela assustou-se e perguntou-me se a mãe
sabia disso...
-Não, eu não tivera coragem de lhe falar, respondi.
Ela me
disse para ficar calma, que ela ia falar com minha mãe, e saiu do quarto.
Minha alma sorriu e eu esperei ansiosamente pelo escândalo que minha mãe
faria, mas que eu estava agora, pronta para enfrentar.
Eu odiava aquele
lugar, aquelas pessoas eram-me hostis, e meu noivo... não importa, eu queria
ir embora, jamais me casaria.
Mas o tempo passou... os ponteiros do relógio
batiam tão forte, como se fossem monstros se aproximando para me devorarem, e
de repente a porta se abriu.
Mas não era minha irmã, nem minha mãe. Elas
tinham ido na frente, foi o que me disseram. O carro do padrinho me
levaria. Senti meu coração murchar, como se ele fosse um balão de gás,
onde alguém tivesse encostado uma agulha.
Eu quis gritar, chorar,
fugir...mas não tive coragem.
Minha irmã me traiu... foi uma das muitas
vezes em que ela me traiu.
Não senti ódio, apenas dor. Até aquele dia, era a
pior dor que eu já havia sentido. Lembro-me que no trajeto para a igreja,
ocorreu-me que aquilo que eu estava sentindo, era o que sentiam as pessoas
que são condenadas a morrerem na cadeira elétrica. E de repente
lembrei-me que eu ia continuar viva, portanto ainda tinha uma chance de
escapar de tudo aquilo, no futuro.
Senti uma alegria quase incontida ao
pensar nisso, e decidi cumprir minha sentença com louvor. Já que faltara-me
coragem para desistir, era preciso ter dignidade e postura, ser uma noiva que
despertasse orgulho, principalmente para minha mãe. Eu não podia
decepcioná-la... e não decepcionei. Meu "sim" soou quase tão sonoro quanto é
o som desse silêncio dentro de mim, agora. Eu pude ouvir-lhe até o
eco...
E depois os cumprimentos, fotos, festa... tudo muito lindo e
feliz.
Até eu, quase acreditei naquela felicidade...
Volto-me para a porta
entreaberta, agora... é melhor voltar para o meu silêncio. O que veio a
seguir, naqueles dias trôpegos do meu casamento cambaleante, foi muito mais
triste e mais dolorido do que qualquer solidão, talvez por isso eu me recuse
a senti-la, ou pelo menos a identificá-la. Meu casamento durou três longos
meses...
Eu só preciso de algum barulho, mesmo que seja o do mar.
Mas
hoje, o mar está quieto... vai ver estão obrigando-o a se casar... quem
sabe...
Eu, apesar do silêncio, sinto-me feliz, quase feliz.
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